segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

PORTUGUÊS- GÍRIAS (PROFESSORA HELAINE)

DINO PRETI
UM PESQUISADOR PIONEIRO, PREMIADO E...COISA INÉDITA NOS MEIOS ACADÊMICOS...MUITO HUMILDE


Entrevista concedida em 15 de março de 2005,
na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

por Renira Cirelli Appa


Venerado pelos alunos, respeitado em qualquer meio acadêmico brasileiro, honrado para sempre através do livro em sua homenagem “Dino Preti e seus temas”, este homem simples, de conversa agradável, fez a diferença no estudo da língua falada brasileira. A pesquisa sobre a Análise da Conversação tomou novo fôlego depois que Dino Preti resolveu se debruçar com interesse sobre esse tema por vezes polêmico.
Sua humildade chega a impressionar, chama de sorte seu pioneirismo em diversos assuntos sociolingüísticos. Dá para imaginar que este Livre Docente, com tal tradição acadêmica, diga que alguns de seus livros, pioneiros e bem vendidos, tiveram sorte devido à boa distribuição?
Pois é, este é Dino Preti. Tenhamos todos bons momentos de aprendizado aos pés deste mestre por excelência.

LETRA MAGNA – Professor, fale resumidamente sobre sua trajetória acadêmica.

DINO PRETI Eu me formei aqui na Universidade de São Paulo, no curso de Letras Clássicas, fui aluno do Prof. Sigismundo Spina, titular da época, por quem fui convidado mais tarde a ser Assistente. O Prof. Fernando Morel me incentivou a ir para a Escola de Comunicações - ECA, onde fiquei por três anos, na verdade iniciamos a Escola de Comunicações da USP. Foi uma experiência muito boa, de fato. Também dei aulas no Mackenzie, de Literatura Brasileira, antes de vir definitivamente para a Letras.
O Prof. Spina, sempre preocupado com minha carreira, me convidou para vir à Faculdade de Letras como Auxiliar de Ensino na Língua Portuguesa. Fiz Mestrado sob sua orientação, um trabalho que foi posteriormente publicado pela revista Alpha, de Marília. Versava sobre críticas de fontes camonianas, examinava o Canto II dos Lusíadas e estabelecia a fonte histórica. Foi um trabalho muito difícil, porque eu não tinha muita experiência em trabalhar com fontes históricas. Fui procurar nos historiadores da época, até antes dos séculos XV e XVI, para saber em que Camões havia baseado determinadas partes da Epopéia.
Depois de ir muito bem no Mestrado, comecei a fazer meu Doutorado sobre Sociolingüística e os níveis de fala. Esses níveis de fala constituíram depois o livro “Sociolingüística – níveis de fala”, já um pouquinho defasado hoje, mas que está na nona edição, sendo uma base razoável para o estudo sociolingüístico. Embora esse trabalho tenha sido feito com diálogos da literatura brasileira, a partir do Romantismo até o Modernismo, mas não incluindo o Modernismo, foi um trabalho pioneiro nesse tipo de assunto.

LETRA MAGNA - E hoje, em seu último livro do Projetos Paralelos NURC, “Diálogos na fala e na escrita” o senhor volta a trabalhar com o diálogo construído ou de ficção no capítulo “O diálogo num confessionário”...

DINO PRETI - Sim, mas agora se trata de um trabalho voltado em outra direção, porque incorporei as teorias da Análise da Conversação, que não havia no livro Sociolingüística, porque a primeira edição do livro foi em 1974 e só trabalhávamos, naquela época, aspectos sociolingüísticos. Agora, com a contribuição da Análise da Conversação, encaminho a análise dos diálogos de ficção por um outro percurso.
Há também grupos da PUC trabalhando comigo outros tipos de diálogo, o teatral por exemplo.
A tese de doutorado sobre níveis de fala foi muito bem recebida e publicada logo em seguida. A primeira edição possuía uma capa e tratamento mais bonito. Depois a EDUSP comprou os direitos autorais e publicou o livro de forma mais econômica, já está na nona edição, vende muito bem, teve sorte. Livro é assim, alguns têm sorte e outros não. Por exemplo, o livro “Linguagem Proibida” foi um livro completamente azarado porque apesar de ser pioneiro no assunto sobre linguagem erótica, foi entregue para a Tomás de Queirós que não cuidou bem da distribuição. Ganhou o prêmio Jabuti, importante em Ciências Sociais e Humanas, mas sem boa distribuição o livro se perdeu por aí. Hoje, ainda se acha um ou outro exemplar, mas poderia ter tido sucesso.

LETRA MAGNA - E como o senhor chegou a ser Titular da USP?

DINO PRETI - Na verdade, intercalei um tempo muito grande entre Doutorado e Livre Docência, por volta de oito anos. Quando decidi completá-la, em 1983, já tinha muitíssimo material para a pauta de argüição e memorial. Em 1985 fiz a Adjunção, que naquele tempo era um outro tipo de concurso; e só em 1988 prestei o concurso para titularidade que constava de uma aula, de uma prova didática extremamente difícil porque incluía os oito programas do curso (hoje em dia é diferente, o professor dá aula na matéria que domina). Por sorte fui muito bem na prova e na aula, conseguindo a titularidade dessa forma.

LETRA MAGNA - E que aposentadoria precoce e tão rápida foi aquela?

DINO PRETI - Pois é, fiquei aqui na USP até 1995 e decidi me aposentar porque vieram aquelas ameaças do Governo onde poderíamos perder direitos... minha esposa ficou um pouco desesperada porque tínhamos na família o caso do meu sogro que perdera tudo no fim da vida. Minha mulher, apavorada, aconselhou-me a sair antes que perdesse tudo. Aposentei-me de um dia para o outro, em quinze dias consegui a aposentadoria e saí. Mas, por sorte minha, assim que deixei a USP, a PUC me convidou. Na verdade, fiquei praticamente quinze dias sem fazer nada. A PUC me chamou e não tive a sensação da aposentadoria, aquele sentimento de inutilidade... não tive esse problema. Estou lá na PUC há dez anos, dando aula na Pós-Graduação e tenho um curso na Graduação sobre Metodologia do Trabalho Científico.

LETRA MAGNA - E lá na PUC quem tem a sorte de estudar com o senhor trabalha o que especificamente?

DINO PRETI - Hoje em dia sou muito conhecido porque fui um dos que iniciou o estudo sobre gíria aqui no Brasil, que é um estudo amaldiçoado. Quando escrevi o livro “Linguagem Proibida”, o da Livre Docência, o pessoal estranhava: “Você, fazendo um livro sobre isso, linguagem erótica..!?” Mas é claro que aquilo não mudou em nada a minha maneira de ser, a ciência é amoral Trabalhei com o primeiro dicionário de gíria e de linguagem obscena do Brasil, em 1903. Tive sorte, o livro ganhou um prêmio. Dei muitas entrevistas e escrevi artigos sobre esse assunto, de forma que hoje tenho lá na PUC um curso sobre gíria, que é realmente um dos curso que os alunos mais gostam, com ele a gente desmistifica um pouco o problema que existe ao redor da gíria. Na verdade, todo mundo usa gíria e mesmo assim há esse preconceito tremendo contra ela. Procuramos dirimir esse tipo de pensamento e os alunos gostam muito porque fazem pesquisas interessantíssimas a respeito. Uma aluna, a Léa Stella, fez um trabalho magnífico sobre a gíria usada pelos detentos na Casa de Detenção. Atualmente, outro aluno está fazendo um trabalho muito bom e interessante sobre a linguagem dos homossexuais, um aluno excelente. Estabeleceu um mapeamento muito bem feito da Cidade de São Paulo, dos pontos em que os grupos estigmatizados vivem; fez um levantamento do vocabulário ligado às situações em que eles vivem, procurando mostrar a ligação entre a língua, a criação vocabular e lingüística, e a vida que eles levam. Estou aguardando que ele o termine até o final deste ano. Acredito que será muitíssimo interessante. Além de outras pesquisas como: a linguagem de periferia e marginal nas obras de Plínio Marcos.

LETRA MAGNA - Sendo a gíria um fenômeno sociolingüístico polêmico, como ela tem na integração social seu papel, até que ponto ela pode ser “benéfica” ou “maléfica” para os grupos usuários?

DINO PRETI - Acho que em linguagem não há essa história de “benéfica” ou “maléfica”. Há variantes lexicais. Há variantes de maior prestígio e de menor prestígio. A gíria, de maneira geral na sociedade, é uma variante de baixo prestígio porque está ligada à linguagem dos jovens, do povo às vezes sem cultura; ou no caso da gíria de grupo, que é a mais interessante, está ligada às atividades marginais, às prisões, aos drogados, etc. Depois que a gíria sai desses âmbitos privados e se espalha, torna-se uma linguagem comum, que todo mundo usa. Existe, porém, esse estigma que se prolonga não sei por que; na verdade, a gíria em determinadas ocasiões é até a melhor linguagem. Depende do contexto e da situação. Torna-se inconveniente só quando usada indevidamente, em situações e locais onde não seja esperada e não haja expectativa para ela.
Ela é tão estigmatizada que os próprios usuários de gírias têm essa noção, assumem a idéia de que essa linguagem é proibida e só eles, presos, drogados, etc. podem fazer uso dela enquanto participantes do grupo. Minha aluna, Léa Stella, ao fazer as entrevistas na Casa de Detenção, gravou um CD com conversas onde os presos diziam que agora que estavam recuperados já não usavam mais gírias, negavam o uso das mesmas.  Passaram a noção de que ao se estar recuperado o uso da linguagem culta é que seria esperado.
Essa mesma posição é vista nas escolas, com professores e livros didáticos. Dizem que não, mas todos estigmatizam a gíria dizendo que é uma linguagem baixa, de gente inculta, quando na verdade ela se espalha rapidamente e passa a ser uso comum de toda a sociedade.
As gírias usadas em situações informais, coloquiais, funcionam muito bem entre os jovens e são elementos de interação. Mesmo as pessoas mais velhas, quando querem mostrar jovialidade e simpatia, usam palavras de gírias para se aproximarem dos mais jovens. Nesse aspecto, um falso preconceito é pensar que a gíria seja “maléfica”. Acho que nenhum vocábulo, nem mesmo o palavrão é maléfico, há situações em que somente o palavrão resolve. São recursos expressivos da língua, fazem parte da linguagem afetiva. Usados devidamente são ótimos recursos.

LETRA MAGNA - E sobre a formação da gíria como vocábulo, existe um padrão?

DINO PRETI - Não, é a formação normal do português. A gíria não é uma linguagem, é um vocabulário, e segue os padrões da língua. Geralmente, a grande fonte do vocabulário gírio são as mudanças de significado para significantes iguais. Por exemplo, legal ao invés de dentro da legalidade passa a significar bom, ótimo, agradável. As poucas palavras formadas na gíria geralmente são onomatopaicas, como lelé da cuca (louco, ruim da cabeça) que traz uma repetição silábica, um elemento sonoro da linguagem. Publiquei alguns artigos sobre a formação gíria e no penúltimo livro meu, “Léxico na língua oral e na escrita”, da Humanitas, escrevi um dos capítulos sobre “Variação lexical e prestígio social das palavras”, dividi em três partes e uma delas é sobre gíria e sua formação.

LETRA MAGNA - Sei que o senhor já respondeu de certa forma, mas existe uma inadequação do uso da gíria? Ou ela pode ser usada a qualquer momento?

DINO PRETI - Acho que há, ela não deve ser usada a qualquer momento. Não tem sentido na linguagem científica, por exemplo, ou em uma sala de aula. Hoje mesmo estava dizendo para os alunos lá na PUC sobre este problema de inadequação, eu dizia sobre a entrevista do Prof. Bechara para “O Estado de São Paulo”, na semana passada, onde ele critica não o uso dos estrangeirismos, porque acha essa incorporação normal na língua, mas o uso inadequado dos coloquialismos, por exemplo, em um livro didático. Cria algum efeito especial empregar bole uma frase, ao invés de faça uma frase? Por acaso o autor criaria a sensação de igualar-se à linguagem do estudante? De pertencer ao mesmo grupo? Não há sentido nenhum. Um professor não vai se identificar nunca com o aluno, são grupos sociais diferentes, e não é o uso dos coloquialismos que vai fazer com que isso aconteça.
Há um momento que você sente na conversa e sabe quando uma palavra vai bem ou quando não deve ser usada, para isso há de se ter cultura lingüística, maleabilidade. Da mesma forma, um professor pode deixar o aluno em situação difícil ao usar uma palavra técnica, científica ou um neologismo desconhecido. Pode parecer pedantismo, e do ponto de vista pedagógico e psicológico é péssimo, o aluno se sente humilhado e ignorante. Situação, aliás, muito comum na universidade.
Da mesma forma a gíria, se o professor quiser se aproximar do aluno, fora da sala de aula, não há problema algum em se usar uma gíria, mesmo sendo professor de língua. O problema é sempre a inadequação.

LETRA MAGNA - Qual a distinção, se houver, entre gíria, jargão e “palavrão”?

DINO PRETI - São grupos diferentes. A gíria é um vocabulário de grupo, surge do grupo, assumida por ele. Por exemplo, a palavra cachorra, no grupo Funk é usada em determinada situação com determinado sentido. Depois, quando a gíria se espalha, sai do grupo e vai para a sociedade, pode até ser contestada, pode deixar de ser vista como gíria e passa a fazer parte da linguagem popular. Mas a gíria é, de fato, vocabulário de grupo. Prefiro usar o termo gíria de grupo específico. Gíria comum já é, de certa maneira, uma negação da própria gíria, porque esta é, por natureza, uma linguagem secreta fechada. O trabalho que citei daquele rapaz pesquisando as gírias dos homossexuais é impressionante, às vezes não dá para entender nada. Trata-se de um fenômeno interessante. É o uso da linguagem como defesa pessoal; se você não entende, você não faz parte do grupo, está fora. São formas pessoais de exclusão do grupo. A gíria funciona como defesa e identificação de grupo.
O jargão, a meu ver, é um tipo de palavra técnica ou científica vulgarizada. É a vulgarização da linguagem técnica Mas qualquer neologismo ou termo técnico não é para ser usado abusivamente, para mostrar que se tem cultura, que se é superior aos outros. Nesse sentido, o jargão é uma linguagem condenada porque passa uma idéia de superioridade, dá à pessoa que fala certa autoridade, poder, status. Como uma pessoa que fala uma língua estrangeira, pode até impressionar, ninguém entende nada e ninguém ousa perguntar para não ser humilhado. Seu uso pode funcionar como pedantismo e não como cultura. Alguns alunos meus chegam com textos difíceis perguntando o que o autor quis dizer, porque colegas insistem em escrever textos herméticos, mais fechados, menos simples e menos didático, pensando que assim tornarão o trabalho mais científico, mas nem tudo que é simples é medíocre.
O “palavrão”, calão ou linguagem obscena é algo completamente diferente, é centrado em referentes muitos específicos: escatológicos (detritos) ou em motivos sexuais, no ato sexual ou órgãos sexuais. O palavrão não tem muita variante, é difícil de se estudar, se pegarmos documentos de um século atrás constataremos que os palavrões serão os mesmos. Cada língua tem seus palavrões exclusivos, cada uma tem sua maneira de ofender. Por exemplo, na França não se usa puta mas con que significa o órgão sexual feminino, essa é a maior ofensa dos franceses. É uma questão de cultura. Em geral o referente é sempre sexual e do ponto de vista criativo deixa muito a desejar, chega a ser cansativo. Diferentemente da gíria, cujos referentes variam completamente de acordo com os grupos e a criatividade é muito grande. Eu não daria um curso sobre “palavrão”, não há material suficiente para pesquisa, é muito limitado, ao passo que sobre gíria um curso de seis meses ainda é pouco porque há tanta coisa para se ver, pesquisar sobre a influência social implicada no fenômeno da gíria, a agressão social, por exemplo na linguagem dos adolescentes, exclusão social, humorismo, sexualidade, raízes culturais,. É um assunto muito amplo sempre com aspecto de agressividade e individualidade do grupo.

LETRA MAGNA - Qual o caminho que o vocábulo gírio percorre no tempo?

DINO PRETI - Em Portugal, por exemplo, calão quer dizer gíria comum; e gíria seria o termo fechado de um grupo. Às vezes, as pessoas guardam a noção de que a palavra é uma gíria e outras não, por exemplo a palavra  bronca – dar uma bronca – ela já perdeu essa noção de sentido fechado em um grupo. Legal e bárbaro surgiram na época da Jovem Guarda, já se vulgarizaram tanto que perderam a noção de linguagem de um certo grupo de determinada época. Foi o Roberto Carlos quem lançou.
A gíria é uma transição na vida da palavra: sai do vocabulário comum, vai para a linguagem de grupo, depois ela se desgasta, volta para a linguagem comum ou se arcaíza, desaparece.
A gíria é pouco resistente ao tempo, tem muito a ver com o tempo contemporâneo em que as coisas se renovam muito rapidamente, enquanto na linguagem tudo é tradição por excelência. A gíria é muito renovável, permanece por um tempo; a partir do momento em que fica muito conhecida, muda. Os grupos querem a exclusividade dela, se todos conhecem ou usam é hora de mudar. Esgota-se como efeito expressivo e desaparece rapidamente, às vezes em meses. As que duram mais, como legal , podem durar 20 ou 30 anos, mas como palavra essa duração ainda é muito curta.
A gíria também identifica as pessoas quanto à idade. Se empregarmos uma gíria em desuso, identificamos nossa idade. Isso demonstra a transformação constante no tempo e no espaço a que está sujeito esse vocabulário.

LETRA MAGNA - Nós, da Revista Eletrônica Letra Magna, agradecemos sua atenção e tempo tão precioso dedicado a responder nossas perguntas. Desejamos-lhe muitas felicidades e sucesso contínuo em seus projetos e ensino.

Esta publicação é mais que uma homenagem a Dino Preti, lingüista e profundo conhecedor da literatura brasileira e da língua portuguesa. Seu trabalho serviu de inspiração para amigos e ex-alunos escreverem depoimentos, ensaios e artigos que trazem luz ao estudo da linguagem. Destaque especial têm os capítulos dedicados à oralidade, área valorizada na escola hoje, mas ainda pouco conhecida do ponto de vista da prática pedagógica. Tópicos tratando das características do texto falado ou das peculiaridades na repetição de palavras ajudam a conhecer melhor o tema.

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